Imprevistos Acontecem

Modelos não são representações fiéis de realidade. Ao modelar, captamos alguns aspectos da realidade e formulamos uma abstração que nos permite entender fenômenos ou processos específicos, com um propósito bem definido. Qual é a relação entre salários e o desemprego, por exemplo. Ou como um agente racional faz uma escolha.

Um erro muito comum é acreditar que modelos precisam ser, ao menos, realistas. O senso comum parece dizer que, quanto mais realista for o modelo, melhor. Por essa lógica, modelos bem formulados e úteis costumam enfrentar críticas do tipo: “Isso é uma supersimplificação!”, “Pessoas não são racionais assim na vida real!”, “Pessoas não podem ser reduzidas a números!”, e assim por diante.

Modelos simples costumam ser melhores. Quanto mais elementos acrescentamos ao modelo, mais complicado fica seu tratamento numérico. Isso pode torná-lo impreciso ou mesmo intratável computacionalmente (ou seja, inútil).

Pessoas não são tão racionais como prevê a Teoria da Escolha Racional. Fato. Pessoas são emotivas, impulsivas, muitas vezes tolas e assim por diante. Para fins de modelagem, no entanto, podemos considerar, por hipótese, que pessoas são racionais e desejam maximizar alguma função utilidade. Nunca seremos capazes de prever exatamente o que um ser humano fará diante de uma situação de escolha, mas, ora bolas, se o objetivo fosse esse, seria melhor abandonar a Matemática e usar cartas de tarô, búzios ou bolas de cristal.

Pessoas não são números, porém números dizem muito sobre pessoas. Dizem o suficiente para conseguirmos avaliar tendências e comportamentos prováveis. O resto da magia fica por conta dos Teoremas. Não preciso entrar em considerações de antropologia filosófica para saber o que esperar das pessoas. É por isso que sempre digo que, entre as metafísicas, a Matemática é a única que presta. As demais são superstições, crendices ou instrumentos para manipular a manada.

Uso modelagem científica por uma única razão: FUNCIONA. A Ciência funciona. Preciso dizer a meus clientes o que eles precisam fazer para ganhar mais dinheiro. Esse é meu papel. Ora, isso exige saber avaliar relações de interdependência estratégica em um ambiente dinâmico e complexo. Sem modelagem, só pelo “feeling” ou pela experiência, minha taxa de acertos cairia drasticamente.

Isso não significa, obviamente, que utilizo somente modelagem formal e computacional. Sei o que fazer com a multidão de dados que recebo dos processos internacionais de mercado, porém imprevistos acontecem. Diante deles, muitas pessoas se livram da responsabilidade dizendo que negócios não são uma ciência exata.

É verdade, não são. Não podemos prever com certeza absoluta tudo o que pode acontecer ou dar errado. Às vezes erramos mesmo. Mas há uma diferença enorme entre quem confia apenas em suas ferramentas de modelagem e, quando erra, atribui o resultado negativo a imprevistos que acontecem, e o profissional responsável que tenta ir além dos limites da modelagem, buscando antecipar coisas que poderiam dar errado para incluí-las no planejamento estratégico.

É por isso que confio em meus modelos e ferramentas computacionais. São, para mim, a mesma coisa que o martelo para o ferreiro. Porém não desprezo minha bagagem humanística. Saber interpretar aspectos culturais, contingências históricas e motivações sociais faz toda a diferença. Isso é o que me ajuda a interpretar melhor os resultados que meus modelos proporcionam. É, em outras palavras, o que me prepara para lidar de maneira profissional e responsável com os imprevistos que costumam acontecer no ambiente internacional de negócios.

__

Claudio Téllez é consultor de negócios internacionais na Laissez Faire Consultoria de Negócios. Contato: tellez@laissezfaireconsultoria.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *